Simone Gutierrez: a voz de Ribeirão que encanta o Brasil
A grande
busca do ser humano é o encontro consigo mesmo. Busca antiga. Tão longínqua nos
calendários como a frase inscrita à entrada do templo de Delfos, na Grécia
Antiga, e tornada conhecida por Sócrates: "Conhece-te a ti mesmo e
conhecerás todo o universo e os deuses, porque se o que procuras não achares
primeiro dentro de ti mesmo, não acharás em lugar algum."
A arte, instrumento imprescindível de sustentação da vida, porque
a amplia e a impulsiona, nasceu assim, como um som em busca de si, estranho e
inquietante, de dentro para fora. A música, na escala da humanidade, é a
primeira das artes. A história, sabemos, floresce com o ritmo que damos a ela.
A voz, seu guia, é o som que nos remete, como ato inicial, a nós mesmos. E por
ela somos movidos a pequenos golpes de encantamentos. Depois, coube-nos
inventar o sorriso e o aplauso para oferta em troca.
Simone Gutierrez nasceu em Ribeirão Preto, num mês de agosto, em que os
ventos tecem sua melodia inconfundível. E fez dos sons o seu barco de
travessia. Dos primeiros encontros com a voz de seu corpo, de seus olhos,
descobriu-se bailarina pelo Studio de Dança Luciana Junqueira. Foi o primeiro
acorde de uma música infida e sem fronteiras. Especializou-se no Institute Open
Jar Productions e no Broadway Dance Center, em Nova York. Foi professora de
dança na escola de atores do reconhecido diretor Wolf Maya. E, em
2001, estreou no teatro, também na Broadway, com a peça Os Miseráveis. Foi
Protagonista no musical Hairspray, dirigido por Miguel Falabella. Venceu
prêmios e estendeu uma ribalta sobre seu nome.
Mas o que se quer falar de Simone aqui, além de documentar sua
marca em novelas da Globo, como Passione, Cheias de Charme, Joia Rara e Alto
Astral, é que seu contato com a vida é um roteiro de encontros. E ninguém passa
pelos dias sem derramar lágrimas, também. Simone precisou perder 46 quilos para
se ajustas às necessidades de seu corpo. Dormiu de favor, sentiu falta dos
amigos nas noites paulistanas, quando já sabia que não há voos que comecem pelo
céu. (É preciso aprender a ficar de pé, primeiro.)
Hoje, atriz, coreógrafa, cantora e bailarina, Simone multiplica os
deuses dentro de si por sua voz irrepreensível. Retribui à arte um sorriso,
como a cortina aberta pelos mesmos ventos de agosto, que um dia presentearam
com a vida. Neste novembro, retorna a Ribeirão Preto, onde guarda casa, família
e amigos, para encenar o musical Liza e Eu, em homenagem a diva da Broadway. Conheci
Simone um dia desses, quando experimentava um verso numa voz que eu inventava,
para conseguir me ouvir. Às vezes precisamos disso, que alguém cante para nós,
por nós, para que nossos olhos se enlacem como nossos sonhos e nos façam
caminhar em direção ao ar, como num primeiro bater de asas para o voo que
transforma e apaixona. Simone foi o vento de agosto, sob meus pés. E, ouvindo-a
mais de perto, percebi que Simone é a voz que poema algum pode alcançar.



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